A BANALIDADE DO MAL




Olá pensadores, tudo bem com vocês ? Espero que sim!Essa semana na escola passamos para nossos alunos o filme O menino do pijama listrado que me fez refletir e fala sobre esse tema. Assim vimos como  acima no título irei falar nessa semana sobre a banalidade do mal e entendo que o capitalismo selvagem mutila por completo o caráter social dos homens, mitigando as relações humanas. O que sucede às relações humanas quando a banalidade do mal se alia à inutilidade banal? Nesse texto você terá convergências entre Hannah Arendt, Adorno e Horkheimer.
Troca de tiros. Todos em suas posições. No centro do campo de batalha, um carro em chamas. Ninguém ousa se mover senão alvejar o inimigo. Guerra cirúrgica. Ou pior: Guerra sem ódio. O soldado luta por lutar. A morte foi profissionalizada. A compaixão se torna um resíduo quando a precisão milimétrica das metralhadoras mata sem que haja a possibilidade de dor. O carrasco é piedoso quando reduz o tempo da execução. Súbito, um grupo de soldados isolar o inimigo. Agora ele só faz se esgueirar para tentar escapar das balas. Já não há contraofensiva, sua munição acabou. Ele não pode nem mesmo suicidar-se . Mas há um último recurso. Retroceder nunca, render-se jamais: O soldado prefere morrer em combate. Assim, corre a não mais poder , o zunidos das balas rasga o ar, até a coxa esquerda, ou teria sido a coxa direita? é alvejada. Um grito lancinante traz um inusitado armistício. Todos correm para cercar o inimigo que agoniza. Armas apontadas, é preciso ter certeza de que ele não oferecerá reação. O vermelho jorra na perna. Seria sangue? Não! É tinta. O soldado de 15 anos está na oitava série. Isso é uma partida de Paintball é o jogo predileto dos formandos. Quando perguntam ao jovem se está tudo bem, ele consegue dizer entre gritos de dor:
_"Demais, demais! Só não é mais real do que no vídeo game! Lá a gente demora mais para morrer; lá também é mais fácil matar".
Agora vejamos outro caso; 2013 Avenida Paulista, fim da madrugada, início da manhã. Um ciclista é atropelado. Até ai, a sociopatologia da vida cotidiana vê isso com muita naturalidade, ocorre que na ocasião, quando da colisão o ciclista teve o braço decepado. Ainda uma vez, nada seria inédito, já que o motorista doloso fugiria do local do acidente sem mais. O detalhe fica por conta que , após a colisão, os requintes de crueldade trouxeram novos matizes à ficção da realidade. O motorista sai do carro, vê o ciclista desfalecido, recolhe o membro que há pouco era um braço, volta ao carro, acende um cigarro, deposita o braço no banco de trás do carro e volta a dirigir. O amigo do motorista, recebe uma carona disse que estavam voltando de uma balada. Após deixar o amigo em casa, o motorista vai ás margens do rio Pinheiros e joga o braço na água infecta. Volta para casa, dorme um pouco. Quiçá incomodado por possíveis complicações pelas quais viria  a passar, liga para um advogado. Enquanto isso, o SAMU recolhe o ciclista, cujo o braço, eventualmente poderia ser restituído ao corpo, caso o membro, não tivesse se transformado em mais um estrume que boia rente a uma das marginais. O motorista vai a uma delegacia e se apresenta voluntária e taticamente.

Que diria Hannah Arendt(1906-1975) se entrasse em contato com o fascismo à brasileira? A filosofa provavelmente descobriria quem são os símiles dos judeus por aqui. Os elementos do povo escolhido e escorraçado. A escória que Belo Horizonte varre para o bairro da Lagoinha e para debaixo dos viadutos. O que diria Hannah se, décadas após o julgamento do nazista Adolf Einchmann em Jerusalém, a filosofa fosse convidada para analisar o julgamento de Ubiratan Guimarães? Hannah estaria diante do coronel da polícia militar que, em 1992, após receber ordens do então governador do Estado de São Paulo, comandou a tropa de choque, do presídio do Carandiru para conter um rebelião dos presos, invasão cujo o saldo liquido foi a erradicação de 111 detentos. Assim como Adolf Eichmann, o burocrata nazista responsável pela logística de transporte ou pior, evacuação de judeus para os campos de concentração. Ubiratan Guimarães pôde alegar que apenas cumpriu ordens . E mais: anos mais tarde após o julgamento, o coronel Ubiratan Guimarães foi eleito com 14.111 para o cargo de deputado estadual.
O óleo que lubrifica o mecanismo da guilhotina é responsável pelo fato da maquina cortar as cabeças? A pólvora do revólver do algoz deve ser levada a julgamento? Eichmann afirma que fizera um juramento de lealdade ao Führer. Quebrá-lo significaria pagar com a própria vida. É, no mínimo estranho que o burocrata letal possa lançar mão de argumentos de legítima defesa para sopesar sua vida em contraposição aos milhões de seres humanos que ajudou a exterminar. Mas o estranhamento já não nos deve surpreender. Apenas a falsidade, o cinismo e a brutalidade escamoteados e naturalizados pelo cotidiano de (re)produção social permitem que sintamos estranhamento diante da banalidade do mal. Quando era universitário da PUC via mendigos pedindo esmolas na praça do "coreu"  e indo no sentido da estação gameleira via crianças maltrapilhas fazendo malabarismo na faixa de pedestre para que venham receber alguns centavos enquanto o farol estava vermelho. Enquanto, isso subindo a rua Dom José Gaspar via calouros, bem sucedidos de cabeça raspada e rosto pintado, recebem, fartas doações dos motoristas que se identificam com o sucesso. "Eles, sim merecem!". O estranhamento já não é estranho. Se Eichmann pôde apresentar argumentos para tentar se eximir, por que o coronel Ubiratan Guimarães não pode se dizer inocente? Afinal, a justiça brasileira não gosta de trancafiar os perdedores de sua péssima distribuição de riqueza? Segundo os milhares de eleitores do deputado estadual especificamente os 14.111, a erradicação dos 111 detentos só levou para o Carandiru a pena de morte extra-oficial  de que muitos soldados da PM lançam   mão não asfaltada de São Paulo. Quando sabemos que nos portões dos campos de concentração nazistas, a máxima era: "arbeit macht frei" (o trabalho liberta) dava boas -vindas as remessas humanas, descobrimos que o carrasco torturou a ironia até que ela se curvasse diante do mais refinado sadismo. Podemos  acusar os eleitores do Coronel Ubiratan de serem cúmplices, mas não podemos dizer que são cínicos. A Lógica do poder a mesma para qual Eichmann prestou juramento está ao lado de seus votos.
No ano de 2.005, houve, no Brasil, um plebiscito, sobre a questão do desarmamento. Um dos argumentos para  que as armas continuassem municiando a população civil eram os empregos dos trabalhadores da indústria armamentista.  A morte do outro, do distante, do socialmente proscrito, do "judeu" em várias metamorfose mundo afora. Aquele e aquela que produzem pólvora, munições de revolver, gases, foguetes são a representação mais cabal do alheamento em relação a meios e fins.  Munidos de sadismo que Eichmann acataria, os administradores rezam que a realidade é imperativa e precisa ser maximizada com eficiência e redução de custos. Assim, uma empresa multinacional fará o seguinte cálculo utilitário: Se for mais barato poluir determinada área de manancial em que sobrevivem moradores de forma ilegal, isso é sem direito a título de propriedade, optemos por não tratar os resíduos de produção. Quais são os riscos de os meios comunicação divulguem nossa estratégia administrativa? A mídia, de fato, teria interesse por aqueles indigentes? Se tivermos que pagar indenizações às  vítimas, os valores estimados ultrapassarão o gasto com o tratamento dos resíduos de nosso processo industrial? Os administradores pedem que o departamento de maketing realize pesquisa para saber se a imagem da empresa ficaria abalada entre os consumidores a face mais cotidiana dos eleitores do coronel Ubiratan Guimarães. O mal socialmente gerido é tão pouco estranho a dinâmica de reprodução do capitalismo tardio que devemos perguntar para onde foram escoadas noções de culpa e responsabilidade moral. Uma missão havia sido dada ao funcionário Adolf Eichmann. Logo era preciso cumpri-la . Não é esse o princípio de eficiência e envolvimento com a função que as empresas requerem dos funcionários? Se o III Reich de Adolf Hitler tivesse vencido a segunda guerra mundial, o sistema logístico dos campos de concentração teria se tornado um estudo de caso renomados cursos de MBA.
Nesse momento, você deve está me perguntando: Adriano, você não havia dito que o calculo utilitário e hedonista é o substrato fundamental da banalidade do mal? Que o importante é que o eu alienado se exima em relação aos fins de suas ações com os quais já não precisa se preocupar? O que significa, então a inutilidade banal ?
A inutilidade banal refere-se à faceta impessoal do cálculo utilitário. Em meio a guerra de todos contra todos, a dialética envolvendo senhor e escravo não estabelece posições fixas. Ora empunhamos o chicote, ora vemos nossas costas contra a parede. Hoje estou empregado. Que posso dizer do dia seguinte? O cálculo competitivo que visa desbancar o outro também, visa desbancar contra minha têmpora. A lógica de redução de custos pode cortar a minha própria carne. Quando o custo benefício não faz distinção entre contêiner de parafuso e 5 mil humanos, que pode considerar insubstituível? Ou pior: quem não sente a iminência da inutilidade?
Se levarmos a lógica da competição utilitária as últimas consequências, não será necessário exterminar o outro? Só assim serei pleno senhor de mim mesmo. Apreendemos, então, a contradição que reproduz a dinâmica social. A lógica competitiva que nos movimenta em sociedade, no limite, da vazão a tendências sociopatas. Civilização e barbárie, construção e destruição tornam-se face da mesma moeda.
Ora, ninguém vive sozinho, por mais que o capitalismo tardio crie a ficção do burguês, como uma mônada, contém o mundo em si mesmo. Cada uma de nossas relações é mediada pela onipresença do outro. O reale relacional; o relacional e real. Nesse preciso momento, escrevo esse texto com um teclado possivelmente fabricado na China, ao passo que a tecnologia de memória vem do Vale do Silício, na Califórnia, a partir um pool de funcionários indianos composto por vários doutores de nanotecnologia. Empreguemos, então o jargão contábil: qual é o preço de se estruturar a sociedade sobre uma base antissocial que põe pessoas em relações na mesma medida em que as faz colidir?
Qual é o preço da prática e da ideologia hedonista se todos e cada um dos nossos atos são mediados pela alteridade? Quando a banalidade do mal subjaz à inutilidade banal, o sadismo socialmente gerido faz prazer se confundir com dor. Primeiro afirmamos que o outro é inútil eis o claudicante princípio de sobrevivência. Mas como o eu não conjuga um único verbo sem que nós existamos, a inutilidade nos alcança e logo que descobrimos, que Narciso gosta de multilar: Sobreviver sob a iminência do cadafalso fundo o sadismo ao masoquismo. O sadomasoquismo como fundamento da banalidade do mal. Ora, se eu ando armado, há pressuposição de que o outro está para me agredir. Quando o agressor precisa antecipar a clava, é porque ele não sabe se irá apanhar. A corrida armamentista como profilaxia embaralha as identidades de agressor e agredido. Salto do carro não apenas para golpear, mas também para ser golpeado. Referendo, então o juízo da sociedade sobre o outro e sobre mim. Somos ambos utilitários, queremos prazer, somos ambos, inúteis, queremos sofrer. A sociedade nos transforma para permanecer idêntica a si mesma.
Theodor Adorno (1903-1969) e Max Horkheimer(1895-1973), na Dialética entre o senhor e o escravo extremada pelos algozes nazistas diante dos judeus, poloneses, russos, negros, ciganos e homossexuais diz que quando Fritz aniquila sua vítima e se vê tingido por seu sangue após os golpes tresloucados e sucessivos, a dialética entre senhor e escravo se vê transferida para os próprios conflitos de Fritz.
Arendt, Adorno e Horkheimer sabem que a condição de Adolf Eichmann é bem diferente daquela que é enredada o carrasco hipotético Fritz.  Eichmann não precisa virar o rosto para negar a humanidade do condenado pedindo clemência. Por mais que traçado da assinatura de Eichmann mimetiza e prenuncie os trilhos do trem rumo a Auschwitz, o nazista bem pode dizer que era apenas engrenagem do sistema genocida. A burocracia dilui a culpa e a transforma em resíduo da divisão letal do trabalho. É como se Eichmann sugerisse que é preciso perguntar aos membros do pelotão se sentem culpados por matarem centenas de pessoas todos os dias. Rudolf Hoess comandante de Auschwitz  começou a perceber que a produtividade letal do campo sob sua administração diminuía á medida que os pelotões de fuzilamentos recebiam mais e mais remessas humanas. Os atiradores se embebedavam  nas tavernas, os algozes se multilavam e espancavam suas esposas. Suicídios em massa. Foi então que o gás Zyklon B volatizou o carrasco. Morte sem ódio e sem remorso. Para que a solução final não fosse emperrada por resquícios indesejáveis da consciência, o gás se tornou o executor mais civilizado: não a derramamento de sangue, nem gritos as paredes das câmeras de gás são espessas, não sabemos o que se passa ali dentro. Assim, os antigos atiradores podem ser realocados nas trincheiras lá terão um motivo heroico para morrer. Se a banalidade do mal pressupõe a guerra sem ódio, mato porque devo matar, eis tudo a inutilidade banal atinge a figura do próprio carrasco. A clemência pelas vítimas se transforma na morte mais eficiente. Ter compaixão significa matar o outro num , átimo ; erradicar o sofrimento junto com o sofredor. Ao jogar fora a água de banho, junto com o bebê, Adolf Einchmann pode dizer que não é antissemita por viabilizar o transporte de milhões de judeus ao despenhadeiro da solução final.
Em uma cidadezinha alemã. os moradores temiam a chegada do Exército Vermelho. O que será de nossas mulheres? Fuzilarão todos os homens! Os comunistas comem criançinhas! Começou então a despontar um novo ódio contra os judeus, com isso vinha a última súplica de führer já não pode conduzir o Reich á vitória final, por que gastar o gás precioso com a escória judia? Malditos sejam! Eles querem tudo para si, eles querem ser mortos em nosso lugar, mas não deixaremos que o gás  seja desperdiçado com vocês! "Amado führer: por nossa grande Alemanha, outrora soldados agora são os mais novos voluntários para solução final.
(Sousa, Adriano Soares de)
Referências bibliográficas: Einchmann em Jerusalém, um relato sobre a banalização do mal, Hannah Arendt, Companhia das letras.
Dialética do esclarecimento, Theodor Adorno, Editora Zahar.    Jornal Folha  de São Paulo do dia 14 de Março de 2013                                                                                                             

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