POR QUE 150 MIL MORTOS POR COVID-19 NÃO CAUSA TANTA COMOÇÃO NO BRASIL? FREUD EXPLICA!

 Olá pesadores, tudo bem com vocês? Comigo vai tudo bem graças Ao Bom Deus! E antes de começar a explanar sobre o tema de hoje, gostaria de dar mais uma boa notícia do blog: passamos de 90 mil visualizações, e acredito que até o final do ano chegaremos aos 100 mil, conto com a ajuda de todos vocês para que isso aconteça.

Indo para o tema de hoje, quero dedicá-lo a minha tia Zenilda( mais conhecida como tia Zê) que nesse momento se encontra em situação delicada ,pois, foi diagnosticada com Covid-19 e a mais de uma semana se encontra no hospital, e só quem tem um ente querido sabe a dor que isso provoca nos familiares e nos mais próximos. Minha tia infelizmente para o estado ela é apenas um número, sim, ela faz parte dos mais de 5 milhões de infectados no Brasil e dos 37 milhões em todo mundo, mas para quem é mais próximo a ela, não é só um número é uma vida que corre risco.

No Brasil chegamos a incrível marca de 150 mil mortos, é claro que o número de recuperados é maior, e de muita covardia querer comparar esses números com por exemplo os números de casos de dengue, são coisas diferentes, com proporções diferentes não tem como comparar. 

O que mais me surpreendi de fato nesse quadro é o fato de que aqui no Brasil, nós presenciamos uma certa anestesia diante dessa brutal constatação. Os números chegam no jornal da noite com a atualização diária e encaramos como se fosse números da bolsa de valores  e para muitos o que são citados pelo âncora do telejornal são apenas números , e isso meio que camufla a tragédia de uma pandemia e as vidas que se foram. 

A pergunta que fica no ar  diante dessa situação é mesma que Freud elaborou quando se viu confrontado com os horrores da guerra, é o que serve de ponte de partida para esse texto é que Freud está convencido que essa situação de desorientação e de paralisia deriva do fato que a velha forma que compreendíamos a nossa atitude diante da morte, não nos serve mais e ainda não desenvolvemos uma outra e é isso que vai causar essa paralisia .

A atitude do ser humano perante a morte é algo constitutivo do nosso caminho enquanto humanidade, o ser humano dotado de razão é o único que ser que tem compreensão que um dia irá morrer, ou seja, o ser humano é o único que sabe que terá a morte como fim, sabendo disso, o ser humano é o único ser que tenta dar sentido a sua existência. Por isso o rito da morte ele é significativo em várias culturas. 

Freud durante a 1º guerra mundial (1914-1918)  sentiu-se incomodado com a situação, pois para ele era inadmissível que povos civilizados ( europeus ) resolvam seus problemas de forma tão primitiva  no caso guerreando-se .  Segundo Freud a repreensão dos instintos  gera civilização .

O que foi está chamando a atenção é que o ser humano é ambivalente porque ele tem dentro de si essa guerra de ser , do amor e do ódio , portanto, a civilização tornou-se um exercício sistemático da repressão desses impulsos e isso faz com que as pessoas passem a viver muito além de seus meios , ou seja, ela aceita as primícias e as  imposições morais de uma certa sociedade , mas ela não tem como eliminar os impulsos negativos que vão ao sentido contrário dessas premissas. Portanto, coexistimos com isso, é viver além de seus meios e de fato até quando podemos viver com essas premissas indicadas.


Freud chega a uma conclusão que para ele foi muito incômoda: a maior parte dos membros da sociedade civilizada , aceita as normas morais formalmente  e convive e pratica seus impulsos primitivos, inclusive a violência , isso faz com que a maior parte do seres civilizados sejam na visão de Freud hipócritas.

Bem, e como isso relaciona com esse quadro quando explode a guerra?  Segundo Freud, quando isso acontece, a morte não pode ser tratada com era tratada antes, segundo o psiquiatra, a racionalização humana caminha para 2 sentidos: em um sentido, a razão procura naturalizar o fato, ou seja,  a morte faz parte da vida é uma interrupção que acontece por uma casualidade que ninguém pode intervir, logo a negamos, porque no fundo todos nós sentimos imortal até que a morte prove ao contrário ,portanto, morte é uma coisa que acontece com os outros e não conosco e nem com os nossos. A outra forma é quando a morte acontece próximo aos meus, sendo assim projetamos a dor da perda , sendo assim a dor e sofrimento a perda daquele ser.

Isso abre no sujeito o que Freud vai chamar de trabalho de luto. Ele ganha esse nome devido ao fato que ao deparar com essa situação, o ser humano encontra uma resistência daquele objeto que não existe mais e portanto, o desinvestimento da energia que foi ali dirigida , logo isso gera muito sofrimento por um tempo maior ou menor, dependendo do processo do luto e isso deriva outro processo que diferencia  do luto por uma série de características que é a melancolia , ela se dá pela identificação do ego  no ser que foi perdido, logo, gera um sofrimento muito maior , uma perda de autoestima, uma auto-punição , essas são umas das muitas características que prolonga o trabalho do luto de maneira patológica .


Sabendo disso, que essa grande quantidade de vidas perdidas, seja no contexto de uma guerra mundial analisada por Freud, seja no nosso contexto que é a pandemia , porque não se provoca a reação do luto e muito menos a reação da melancolia ? Segundo Freud, nesses casos não exitem laços significativos entre a pessoa e o ser perdido, não se produz nem o luto, nem a melancolia .

A triste constatação que vemos diante disso, é que para boa parte da nossa sociedade 150.998 ( números atualizado no momento da produção do texto) não os afeta, e não os afeta porque foram quebrados os milhares de laço que liga esse ser aos outros. A morte assim como analisava Freud analisava na guerra , fica radicalmente deslocada para o outro,mas, é mais que o outro é o outro que é um inimigo é um outro que é descartável , é o outro que não merece a vida, assim como uma dramática expressão utilizada pelo nazismo .

Portanto, naquela época, a morte de comunistas, ciganos e judeus na guerra, para parte daqueles que estão envolvidos nesse ato de barbárie é uma eliminação necessária , não é de fato uma morte , consta nessa forma de pensamento uma negação radical da morte , sendo assim há um silenciamento absurdo da morte  que vem junto com a sensação de quem o pratica de negação da própria morte , sendo assim, uma afirmação brutal de imortalidade .

Se analisamos isso, é possível refletir um pouco sobre essa situação aparentemente estranha em que estamos envolvidos em que estas mais de 150 mil mortes, parece afetar muito pouco certas pessoas , porque lamentavelmente , rompeu-se os vínculos, é presenciamos uma manifestação que podemos denominar como fratura, o outro é radicalmente o outro, não existe possibilidade de identificação, logo a uma escassez de empatia, é o outro que tem que ser negado, o outro que tem se colocado no lugar do inimigo .

Ora, mas como isso pode produzir na dimensão de massa que nós estamos vivendo, o espanto é o mesmo que Freud teve com as barbáries da guerra. A vida civilizada não é apenas aquilo dos valores culturais, dos valores estéticos, é também aceitação de alguns padrões de conduta e convivência é a negação absoluta de que entre seres civilizados , o recurso é a mentira, é a enganação a manipulação deve ser evitado. Ora, Nicolau Maquiavel no inicio da era moderna vai dizer que exatamente isso que ele chama a atenção, que o fenômeno político e a forma de convivência dos seres modernos , inclui a mentira a manipulação .

Enfim, essa forma de negação absoluta da morte, e portanto sua correspondência certo culto a imortalidade, revela até que ponto os milhares de laços que juntam os seres sociais , foram sendo transmutados, de maneira que aquilo que Freud imaginava como uma florescente civilização pode ser ao mesmo tempo a manifestação que nos ensinava Walter Benjamim da barbárie. Isso não nos espanta porque os laços com seres humanos assumiram uma forma específica e determinada, uma relação social entre seres humanos assumindo a aparência de uma relação fantasmagóricas entre coisas.

A coisificação dos seres humanos é a base para que nesse momento o outro seja radicalmente o outro , um outro fora do espectro da humanidade , e portanto sua morte não é exatamente uma perda, não é algo que precisa ser elaborado, nem pelo luto e muito menos pela melancolia , é trágico mas, ao mesmo tempo, muito exemplar, do tipo de sociabilidade que nós nos metemos : na sociabilidade das coisas, na sociabilidade do mercado , por isso que as pessoas estão muito mais preocupadas com a "volta ao normal" das atividades econômicas, com o bom funcionamento do mercado, e para esse tipo de gente pessoas são descartáveis, mas o mercado não. 

Bem, depois que de tudo que você leu, você se sentou triste, talvez isso pode ser uma boa notícia, talvez, para você, esse outro , ainda faz parte de uma rede de sociabilidade da qual você não pode desligar  chama humanidade . Vamos torcer para que os arqueólogos do futuro, quando desenterrarem nossos restos mortais , não encontrem como marca maior da nossa civilização a indiferença. Se cuidem! Se puder, fiquem em casa! Caso for sair, use mascara !      

(Sousa, Adriano Soares de)

Referência Bibliográficas:

Freud, Sigmund, 1856 1939. Obras completas, volume 13: conferências introdutórias à psicanálise (1916 1917) / Sigmund Freud; tradução Sergio Tellaroli; revisão da tradução Paulo César de Souza. 1a ed. São Paulo:Companhia das Letras, 2014.

Imagens: Tiradas da internet

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